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Isadora não entende nada:

eu que escrevi quando eu não era eu.

te escrevo isso porque já não posso mais te escrever e na minha cabeça guardo com carinho um repertório dos mais generosos palavrões do mundo, mas não me lembro de nenhum, porque tu tá ali, pequeno, gigante. intruso dos meus pensamentos, que saco, quero que tu saia. quero me perdoar por te deixar sair assim, mas já não te aguento mais em mim. e nem é porque hoje vai mudar de ano - eu não me importo com essas datas prontas, porque de noite vão me distrair e eu nem vou te lembrar. difícil são os outros dias. aqueles em que a gente não faz nada. difícil são as horas em que eu to parada. enquanto danço, canto e rodopio, nem sei quem tu é. mas se eu paro, meu bem, enquanto eu fumo meu cigarro. enquanto enrolo meu cigarro. depois que ele apaga. tudo que eu trago é você. eu queria acabar contigo, pra vez se tu escorre de vez em mim. qual é tua duração que não acaba nunca? por que não vai embora quando é fim do mês? queria te extinguir do universo. único jeito d’eu me conformar. que se tu vivo eu ainda te sinto e vou sempre te ver - até quando tu não passar.